História/Estado Novo/PVDE
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A Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE) foi criada em 1933, pelo Decreto-Lei nº 22 992, de 29 de Agosto, e pode considerar-se a primeira grande organização policial de natureza política do Estado Novo.

Funcionando na dependência do Ministério do Interior e sob a direcção do capitão Agostinho Lourenço, a PVDE tinha duas secções:

  • Secção de Defesa Política e Social, à qual competia especialmente a prevenção e repressão contra os crimes de natureza política e social;
  • Secção Internacional, à qual competia verificar a entrada e a saída de estrangeiros, a detenção de estrangeiros indesejáveis, o combate à espionagem e a colaboração com os organismos policiais de outros países.

Em 1934, a Secção Internacional da PVDE tornou-se responsável pela luta contra os engajadores de emigrantes e pelo licenciamento e pela fiscalização das agências de passagens e passaportes (Decreto-Lei nº 23 995, de 12 de Junho de 1934).
No mesmo ano, o Decreto-Lei nº 24 112, de 29 de Julho, criou uma nova secção - denominada Secção de Presos Políticos e Sociais - à qual competia " prover ao sustento, manutenção, guarda e transporte dos presos por delitos políticos e sociais, quer preventivos, quer já condenados ".
Em 1935, o Decreto-Lei nº 25 338, de 16 de Março, extinguiu a Direcção Geral de Segurança e criou o Comando-Geral da Polícia de Segurança Pública. Grupo de Presioneiros No TarrafalNo ano seguinte (1936), procedeu-se à Reorganização dos Serviços Prisionais, através do Decreto-Lei nº 26 643, de 28 de Maio, em cuja elaboração teve papel preponderante o Professor Beleza dos Santos. A Reforma Prisional de 1936 previa, além do mais, que os criminosos políticos fossem enviados para "colónias penais no Ultramar" ou encarcerados em estabelecimentos especiais. É neste contexto que se cria a Colónia Penal de Cabo Verde, no Tarrafal, e se entrega o Forte de Peniche ao Ministério da Justiça, para nele cumprirem pena os delinquentes políticos.

O campo do Tarrafal seria encerrado em 1954, mas reaberto nos anos sessenta para os presos dos movimentos de libertação das colónias. Caracterizado por um regime prisional muito severo - tendo ficado para a História a célebre "frigideira" -, nele morreram cerca de 32 detidos, entre os quais Bento Gonçalves, Secretário-Geral do Partido Comunista Português.

Até 1936 - data da criação do Tarrafal - a actividade da PVDE foi muito incipiente e pouco estruturada, com um quadro de pessoal reduzido e mal preparado.

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A Guerra Civil de Espanha (1936) e o atentado contra Salazar (Julho de 1937) marcaram um ponto de viragem na acção da PVDE. A partir daqui, a repressão deixou de privilegiar os resquícios da oposição "reviralhista" e os movimentos operários - que tiveram o seu auge na tentativa de Greve Geral de Abril de 1934 - e assumiu um conteúdo ideológico mais definido, orientando-se predominantemente para o combate ao comunismo.

A reestruturação da PVDE foi apoiada pela polícia fascista de Mussolini (através da Missão Italiana de Polícia, dirigida por Leone Santoro) e pelos serviços alemães (o SD - Sicherheitsdienst - de Reinhard Heydrich e a GESTAPO). No entanto, a generalidade dos historiadores reconhece que a colaboração da PVDE com a GESTAPO tem sido sobreavaliada. Apesar de alguns oficiais - como o capitão Paulo Cumano - terem feito estágios na Alemanha, a cooperação entre os dois serviços desenvolveu-se sobretudo através da Seguridad espanhola. Por exemplo, de acordo com alguns historiadores, teria sido a Seguridad que, seguindo instruções da GESTAPO, deu as informações que permitiram à PVDE desmantelar a " rede Shell", em finais de 1941.

A II Guerra Mundial trouxe algumas modificações em matéria de segurança. Por um lado, foi alterado o Código Penal de 1886, na parte relativa aos crimes contra a segurança exterior do Estado, através do Decreto-Lei nº 32 882, de 7 de Junho de 1943. Por outro, atribuiu-se à PVDE competência para prevenir e combater os novos crimes contra a segurança do Estado e para emitir passaportes (Decreto-Lei nº 33 917, de 5 de Setembro de 1944).

Durante a II Guerra, Lisboa e a Costa do Estoril tornaram-se lugares-chave para a acção dos serviços secretos. Por aqui passaram Ian Fleming (o criador de James Bond), na qualidade de agente da Naval Intelligence Division , o agente "Garbo" e Dusko Popov, o célebre "Triciclo". Na secção ibérica dos serviços secretos britânicos trabalharam personalidades como o escritor Graham Greene e o lendário "Kim" Philby. Os nazis chegaram mesmo a projectar um audacioso plano para raptar os duques de Windsor em Portugal, que ficou conhecido pelo nome de código "Operação Willi". Ao mesmo tempo, o serviço alemão de informações militares, a Abwehr , dirigida pelo enigmático almirante Canaris, serviu-se diversas vezes de Lisboa como local de contacto com os Aliados, especialmente desde 1941, quando a conspiração de altos oficiais contra Hitler entrou numa nova fase e os militares envolvidos quiseram conhecer a posição inglesa para uma paz de compromisso. Os alemães chegam a convidar os ingleses para um encontro em Lisboa entre Stewart Menzies - o chefe dos serviços britânicos - e Canaris. Através de Lisboa, a Abwehr passou aos ingleses importantes informações técnicas sobre os programas de investigação e as cifras dos alemães. Uma das informações mais importantes ficou mesmo conhecida por "relatório de Lisboa", que descrevia os testes alemães com foguetes realizados em Peenemunde.

Hotel VitóriaA intensa actividade dos serviços secretos levou os americanos a difundirem em 1943 um documento sobre os hotéis considerados "seguros" para os Aliados: o Aviz, o Palácio Estoril, o Metrópole ou o Europa. Os hotéis pró-Eixo eram o Avenida Palace, o Hotel Suíço, o Tivoli e o Vitória (considerado o mais perigoso de todos pelos americanos).

A importância estratégica de Portugal - e de Lisboa, em particular - é bem evidenciada num documento norte-americano de 1942:

"Portugal é a principal via para o tráfego de informações, espionagem e actividades subversivas entre a Alemanha, as Nações Unidas e os neutros. Lisboa é o principal ponto de entrada e saída de agentes, representantes e comunicações por todos os meios utilizados, à excepção do rádio, entre a Europa Continental e o resto do Mundo".

A PVDE procurou seguir, ainda que com flutuações, uma política de neutralidade e de não-interferência, deixando os serviços estrangeiros actuar, desde que o fizessem com discrição e não excedessem certos limites (ex. intromissão na política interna portuguesa). Mas se essa foi a linha oficial da PVDE, nem por isso alguns dos seus agentes deixaram de colaborar, a título individual, com os serviços dos Aliados e do Eixo. Quer por vontade própria, quer pelas suas incapacidades, a PVDE foi, em larga medida, mantida à margem da "guerra secreta" que se desenvolveu em Portugal no início dos anos quarenta.

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