Apesar da intensa difusão de propaganda com apelos concretos à realização de ataques terroristas durante a quadra natalícia, durante o mês de Dezembro não se verificaram incidentes relevantes. Deve, contudo, ser destacado que a ausência de incidentes está também diretamente relacionada com a ação das Forças e Serviços de Segurança à escala europeia, traduzida num elevado número de detenções realizadas em diversos países e, não menos importante, na adoção de medidas de segurança adicionais durante este momento específico, tendentes a mitigar ou impedir a realização de ataques de baixa sofisticação e complexidade contra soft targets.

 

De facto, à medida que a ameaça terrorista que impende sobre a Europa se foi agravando, as Forças e Serviços de Segurança tiveram necessariamente de se adaptar à nova realidade e a identificar mecanismos e práticas que pudessem antecipar e reprimir a ação violenta de jihadistas em solo europeu. Ao nível nacional, a partilha de informação foi intensificada. Mas, atendendo à natureza da ameaça, a cooperação europeia tem sido fundamental para a sua mitigação. Não só ao nível policial, através dos canais e organizações formais de cooperação multilateral, como também ao nível da intelligence, através da criação de uma plataforma europeia de partilha de informações de natureza operacional.

O aumento da capacidade combinada das Forças e Serviços de Segurança à escala europeia não é, contudo, o único fator que parece estar a contribuir para uma menor intensidade da ocorrência de incidentes terroristas na Europa. A organização terrorista Estado Islâmico continua a perder território na Síria e no Iraque e a sofrer pesadas baixas entre os seus combatentes mas, igualmente, nos vários níveis de liderança. Em busca de um local seguro para se reorganizar e com uma menor capacidade em substituir algumas chefias fundamentais para o seu sucesso, a eficiente estrutura formal da organização está, de momento, debilitada.

Por este motivo, desde o mês de Outubro que continua a não ser publicada a revista Rumiyah, a principal edição da organização terrorista Estado Islâmico (EI) especialmente dedicada a um público-alvo europeu. Não obstante, a organização continua a prosseguir uma bem-sucedida estratégia de disseminação de conteúdos através das redes e serviços sociais, com o propósito específico de radicalizar e recrutar cidadãos europeus para a sua causa. De facto, a propaganda da organização EI permanece como a expressão à escala global da narrativa, ideologia e mundividência violenta daquela organização terrorista e o meio mais eficaz para inspirar a realização de ataques.

Por outro lado, a pressão securitária nas fronteiras que está a frustrar as pretensões de muitos aspirantes a combater no palco do conflito para a organização terrorista EI serve igualmente para dificultar o envio de operacionais treinados para a Europa com planos concretos de ataque. Por isso, verifica-se uma maior intensidade da atividade online ao nível dos contactos com indivíduos concretos, possibilitando a sua orientação e treino.

Acresce que estes indivíduos são especialmente aconselhados a manter uma aparência inócua no seu quotidiano, não levantando suspeitas relativamente à sua ideologia ou aos seus planos de ataque. Importa igualmente referir que, em face das inúmeras detenções em solo europeu ao longo dos últimos meses, estão a ser adotadas estratégias de segurança das comunicações mais eficientes. Do mesmo modo, os contactos entre jihadistas em solo europeu parecem ser mais esporádicos e discretos, procurando obstar à monitorização por parte das autoridades.

No entanto, a quase total ausência de incidentes terroristas nos últimos dois meses não antecipa um desagravamento da ameaça. A justaposição entre a maior capacidade atual das Forças e Serviços de Segurança e um momento de retração e reorganização da organização terrorista EI pode contribuir para essa perceção, mas a existência de redes jihadistas e indivíduos radicalizados e predispostos para o cometimento de ataques em território europeu – que aguardam uma oportunidade ou instruções concretas – ou mesmo a possibilidade de um número reduzido de foreign fighters conseguirem regressar clandestinamente à Europa concorre para que a ameaça terrorista se mantenha num nível globalmente elevado.

No caso de Portugal, permanece a moderação da ameaça terrorista, uma vez que continuam a não ser identificadas referências específicas visando o nosso país na propaganda difundida pela organização terrorista EI. Não obstante, Portugal não está à margem da estratégia daquela organização, continuando a existir a possibilidade do recurso ao território nacional como plataforma de trânsito, apoio logístico ou recrutamento de jihadistas.

 

Janeiro 2018